Nunca antes
na história de Salvador havia existido um fevereiro tão frio. A chegada inesperada
da neve deixou todos surpresos. Nevava ininterruptamente já havia pelo menos
duas semanas. A Transalvador fez previsões pessimistas sobre o futuro do
trânsito, mas, por incrível que pareça, a neve havia deixado os motoristas
soteropolitanos mais educados e precavidos. Muitos haviam abdicado de seus
carros para utilizar os transportes públicos. No Comércio, por exemplo, em meio
ao caos de quase meio metro de neve, o trânsito seguia tranquilo, apesar das
vagas de estacionamento estarem lotadas. As únicas vagas vazias eram aqueles
reservadas aos deficientes físicos, com sua marcação azul inconfundível fincada
no asfalto.
Ali,
nas redondezas do Mercado Modelo, os transeuntes passavam nitidamente
apressados, vestidos com pesadas roupas de frio. Havia motivo para tanto: a
nevasca era tão forte que mesmo daquela localização era muito difícil visualizar
o Elevador Lacerda. Acrescente-se que a proximidade com o mar e a ventania
criavam uma sensação térmica de algo em torno dos -15ºC. Era difícil até de
imaginar alguém que se dispusesse a se aventurar nos catamarãs ou em uma ida
ao pequeno restaurante do Forte São Marcelo.
No
Comércio, em meio ao tumulto, um senhor de idade, morador de rua, estava
sentado na calçada, ao lado de uma pequena lata na qual algumas boas almas
faziam pequenas doações: 10, 25 ou 50 centavos e – em dias de sorte, quem sabe –
até moedas de um real eram despejadas naquela lata. O que chamava a atenção,
todavia, não era a lata, mas os trajes daquele senhor: enquanto todos passavam
com seus pesados casacos, aquele senhor não parecia ter se apercebido da
abrupta mudança climática: continuava vestido com um short rasgado e uma camisa
velha de botão. Os seus pés estavam descalços e uma bengala também já muito
gasta descansava em seu colo. Este senhor inominado não tinha cor e seus olhos
eram tão profundos e intrigantes que ninguém sabia que se eram pretos ou azuis.
Foi
justamente esse senhor quem chamou a atenção de um transeunte. Vestido com um
sobretudo preto e um terno de lã grosso por baixo, além de um cachecol
vermelho, e carregando uma maleta preta que faria inveja a James Bond, este
outro senhor, de cabelos grisalhos e barba bem feita, passou pelo morador de
rua e não acreditou no que viu: em um frio desgraçado daqueles e o infeliz
estava ali, desprotegido, à mercê do frio de Salvador. O seu primeiro
movimento, instintivamente, foi procurar uma moeda no bolso para jogá-la na
lata daquele pobre coitado, mas, não a encontrando, ele passou direto pela
calçada. Poucos segundos depois, porém, por remorso, ele voltou ao local onde o
velho estava congelando e o encarou. Este, que não gosta desses olhares
atravessados, não hesitou em questioná-lo:
-
Perdeu alguma coisa?
-
Olha, amigo, só quero ajudar. Você está louco? Quer se matar em um frio desses?
- Não
é de sua conta, “amigo”.
-
Olha, desculpa, mas posso te dar roupas mais aquecidas. Posso trazê-las hoje à
noite? O senhor ainda estará por aqui?
- Mais
tarde estarei no campo santo, morto e enterrado. – respondeu o senhor da
calçada, fazendo pouco caso da presença do estranho.
- Mas
já são 17h, posso voltar aqui em torno das 19h. – disse o homem do terno,
olhando o seu relógio dourado. – É o melhor que posso fazer.
- Não
tenho interesse. Obrigado e passe bem.
- O
senhor que sabe de sua vida... – disse o homem, fazendo menção de se afastar.
- Pera
aí! – interrompeu o senhor da calçada – Você se importa comigo?
- Bom,
se eu não me importasse, não teria parado aqui.
- Se é
isso é verdade, então aceito esse casacão preto que você tá usando.
O homem
de terno arregalou os olhos, surpreso. Que audácia! “A gente estende a mão, e
querem logo o braço inteiro”, pensou. Abriu a boca para responder, mas o vazio
tomou conta de sua língua. Não houve palavras, apenas um silêncio perturbador.
- Esse
sobretudo eu não posso dar, me desculpe.
- Por que
não? Estou com frio agora. Preciso de roupas agora. Eu contei quantas pessoas
passaram por aqui hoje: 1.017. Todas de casaco. Você é o primeiro que me
oferece roupas pra essa neve danada. Mas só isso não adianta: a morte é rápida
e certeira. Ela não vai me esperar.
-
Porque... esse sobretudo tem muita importância para mim. – pensou, calculando
que deveria ter pago 2.000 euros pela peça de roupa, no inverno cruel da
Dinamarca, quando viajou para uma reunião qualquer de negócios.
- Um
mendigo como eu não vale muita coisa, eu já entendi. Muito obrigado pela sua
atenção. Agora não me encha mais o saco. – dizendo isso, o senhor da calçada
levantou-se, com dificuldade, apoiando-se em sua bengala, pegou a lata e comeu
as moedas.
Assustado
com a cena que acabara de presenciar, o corpo do homem de terno tentou dar um
grito de susto, mas sua voz havia sumido. Um
homem acabara de engolir uma grande quantidade de moedas bem em sua frente.
Ele tentou gritar para que alguém ajudasse o senhor da calçada – que certamente
teria um problema grave de saúde – mas, novamente, sua voz não veio.
O
senhor da calçada começou a andar como se nada tivesse acontecido. Caminhou
vagarosamente entre a neve acumulada até chegar ao mar da Baía de Todos os
Santos. Lá, se jogou no mar e afundou. O homem de terno, que havia seguido o
senhor da calçada para tentar alertá-lo sobre as moedas, não conseguiu
impedi-lo: toda vez que chegava perto demais, suas pernas travavam. Sua voz,
impotente, não saía. Assistindo o corpo daquele homem sumir na escuridão do
oceano, o transeunte – um mero transeunte – largou o seu sobretudo na neve e
tentou chorar. Entretanto, suas lágrimas congelaram no momento que saíram dos seus olhos, bem
aqui na capital baiana.
A vida
prosseguiu e ninguém soube do intrigante caso do homem que engolira moedas. A
neve ainda cobria Salvador (e não só Salvador); uma neve espessa, esquisita,
estranha aos olhos de muitos, mas que estava lá. Fria. Congelante. Invisível.