Buscas?
Talvez a
pergunta mais clássica da nossa existência seja: o que viemos fazer neste
mundo? Sobre este questionamento debruçaram-se filósofos, teólogos e,
sobretudo, curiosos. É que certeza, certeza mesmo, só temos a de que inexoravelmente
vamos morrer, deixando para trás apenas o que lembrarem de nós. Somos,
portanto, criadores de memórias. Alguns deixam o seu legado através da escrita,
como Machado de Assis ou Ernest Hemingway; outros, através da música, como B.
B. King ou Raul Seixas e tantos outros pela qualidade notável de suas
habilidades em alguma ou algumas coisas, seja na ciência, na política ou na
guerra. Outros, ainda, são marcados pelas simples e doces lembranças que ficam
no coração da família e dos amigos.
Refletindo,
pergunto-me se o que viemos fazer no mundo é deixar o nosso legado profissional:
nãoseiquemzinho é um professor genial, ou um brilhante engenheiro ou um grande
empresário. Neste sentido, provavelmente para a humanidade, por exemplo, o maior
legado de J. R. R. Tolkien é a sua obra literária e o de John Lennon o seu
trabalho musical feito com os Beatles. A grande maioria de nós, todavia, não
chegará aos halls da fama: é improvável que eu e você sejamos conhecidos algum
dia como um ser humano relevante na história da humanidade. Então, para nós,
humildes mortais, qual é o sentido da vida? Será trabalhar arduamente e ter
reconhecimento profissional? Será desempanhar um bom papel como companheiro de
alguém ou de pai para os nosso filhos? É claro que acharemos um pouco de tudo
isto no decorrer da vida e, de qualquer maneira, vamos vivendo. O tempo passa e
as poucas respostas que chegam só nos mostram que andamos fazendo as perguntas
erradas. E aí eu te pergunto: o que você fez hoje? Viu um filme? Leu um livro?
Dormiu com o barulho da chuva? Você cresceu de alguma forma? E acha que
deveria? O que você vai fazer amanhã? Por quê? Você sorriu ao pensar nisso?
Interrogações, interrogações, interrogações.
O fato é que à
medida que vamos envelhecendo a nossa percepção do tempo vai se alterando
substancialmente e nossas prioridades, naturalmente, consomem-se em metamorfoses
ambulantes. A pergunta sobre a nossa estada na Terra, em si, não muda: é a
mesma que fazemos aos quinze, aos vinte e cinco, aos quarenta e aos setenta
anos de idade. O porquê de fazermos esta pergunta, por outro lado, não é o
mesmo, já que simplesmente não somos mais os mesmos. Ninguém entra no mesmo rio
duas vezes. E assim alguns encontram conforto para a nossa problemática
existencial na fé em uma força superior, em um paraíso que nos aguarda, cheio
de maravilhas eternas, enquanto tantos outros se afogam em entorpecentes,
lícitos ou não. Alguns outros tantos fazem de sua vida uma jornada rumo ao
sucesso profissional, com incontáveis horas de trabalho e o acúmulo de invejáveis
conquistas no mundo corporativo, com direito a carros de luxo, casas de praia
enormes e algumas viagens ao redor do mundo. Não me interessa aqui avaliar se
qualquer desses caminhos é certo ou errado: todos os caminhos podem ser certos.
Isto porque invariavelmente persiste no âmbito popular a máxima de que vivemos
para ser felizes.
Não
surpreende, pois, que a Declaração de Independência dos Estados Unidos, de
1776, tenha forjado a famosa frase segundo a qual todos os homens foram criados
iguais por Deus e que os direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade
são inalienáveis (“We hold these trues to be self-evident, that all men are
created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable
rights, that among these are Life, Liberty and pursuit of Happiness”). A ideia,
portanto, é de que devemos ter liberdade para viver e buscar a felicidade. Eu
não sei se o objetivo da vida é ser feliz. Talvez seja. Talvez seja o de deixar
algum tipo de legado, mas, a rigor, isso também não tem sentido. Então talvez o
objetivo da vida seja viver, caminhando com os pés e fitando o infinito do
cosmos em algum documentário do Netflix. Não há conclusões. Apenas
interrogações. Interrogações? Interrogações... E um ponto e vírgula;
P.S.: Amanhã é dia de trabalho, então reflita sobre isso até a hora de dormir. Um beijo no coração.