MERCADO DO AMOR
As ações estavam em alta até o dia
anterior. Todavia, provavelmente em decorrência de uma conspiração divina (era
o que diziam os telejornais), a bolsa havia, de um dia pro outro, entrado em
colapso. O dia amanheceu cinza. George, um cara gordo que atendia telefones, havia
resolvido começar a fumar naquele dia; era, de fato, um caso curioso, pois
George nunca havia fumado um cigarro na vida. De qualquer maneira, ele acordou
com essa ideia na cabeça, determinado a colocá-la em prática.
Ao contrário da maioria dos seus
colegas de trabalho, George sabia que a bolsa ia quebrar. Ele via isso no rosto
das pessoas quando passava na rua, no mudar de luzes dos semáforos, no rebolado
das belas mulheres que desfilavam na rua. No dia anterior, antes que os jornais
anunciassem a calamidade, George, em seu íntimo, já sabia de tudo. Ainda assim,
ele foi dormir tranquilo.
Ao acordar, George fez o de sempre:
comeu pão com ovo, tomou seu café aguado, tomou um banho de quatro minutos,
escovou os dentes, botou sua gravata slim
preta (daquelas fininhas que estão na moda, segundo as revistas) por cima de
sua camisa social branca, passou o cinto por cima de sua calça cinza – que
quase não fechava, já que George era realmente muito gordo - e saiu de casa.
Neste dia, porém, ele passou em uma banquinha próxima e comprou um maço de
cigarro e um isqueiro. No caminho para o ônibus, George fumou o seu primeiro
cigarro do dia: sem saber direito como proceder, basicamente o que ele fez foi
tossir repetidamente e jogar o cigarro, ainda pela metade, no chão, reclamando
da fumaça cancerígena que saía de sua boca. George pegou o seu ônibus e foi
trabalhar.
Entrando na agência, George
imediatamente percebeu o caos instalado no lugar: pessoas correndo e gritando, telefones
tocando incessantemente e alguns corpos dos colegas pendurados em algum cano,
enforcados pelos próprios cintos. O chefe de George, Roberto, gritou com ele
quando o viu chegar, dizendo que ele estava sete minutos atrasado e que estava
muito gordo. George acendeu um cigarro, sorridente, e acenou para o chefe,
tossindo um pouco menos dessa vez. Em qualquer outro dia certamente George
seria despedido naquele exato momento. Mas não era outro dia: aquele dia não era
como os outros dias porque tinha dado merda no sistema.
George sentou em sua mesa e observou
seus seis telefones tocarem sem parar. Fez um sorteio mental e atendeu qualquer
um deles:
- ETA Corretora, George, bom dia.
- Bom dia o caralho, seu filho da
puta! Investi tudo na Larissa e descobri que hoje perdi todo o meu
investimento. Como vocês me explicam isso, sendo que vocês mesmos me indicaram
essa opção? Disseram-me que era um investimento seguro, de pouco risco e de
alta constante.
- E o senhor acreditou? Mas é um
idiota mesmo!
- COMO É QUE É?
- Digo, o senhor conhece alguma coisa
de Larissa?
- Claro que conheço! Uma mulher de bem
com a vida, pós-graduada, gosta de drinks nas sextas e sábados, dois
ex-namorados – um era brocha –, ganha dez salários mínimos, tem as melhores
amigas casadas e não tem problemas com sexo anal. Gosta de sertanejo, mas ouve
Chico Buarque também.
- Isso foi o que nós dissemos ou o que
o senhor constatou?
- VOCÊS ME FALARAM QUE ERA UM
INVESTI...
- Senhor, você é um idiota. Passar
bem. – e foi assim que George desligou na cara do primeiro cliente do dia.
Acendeu outro cigarro, mandou um estagiário te trazer uma xícara de café e
cruzou as pernas sobre a mesa. Os telefones continuavam tocando. Atendeu outro.
- ETA Corretora, George, bom dia.
- Bom dia. Quem fala?
- George.
- Oi, George, aqui é Jéssica. Olha só,
queria discutir um investimento que fiz com vocês no mês passado.
- Jéssica o que mesmo?
- Jéssica sobrenome tal e dados etc e
tal.
- Ok, Sra. Jéssica. Em que posso
ajudá-la?
- Então, na realidade eu fiz dois investimentos.
Um em Ricardo e outro no Eduardo.
- Deixe-me adivinhar... Os dois
quebraram hoje?
- Isso.
- E a senhora quer o reembolso porque
dissemos que era um investimento seguro?
- Não, não é isso.
- Não?
- Não. Na realidade, eu queria
investir mais em Eduardo.
- Olha só... Estou aqui olhando a tela
do computador e preciso aconselhá-la a não fazer isso.
- Por que não?
- Eduardo, assim como todos os outros,
quebrou hoje. Uma queda horrível! Todos os outros investidores já retiraram os
seus investimentos. Só a senhora continua com determinando montante nele.
- Pois quero investir mais.
- Mas minha senhora, Eduardo não é
confiável! Até que ganha bem, mas já traiu duas namoradas. Diz que vai beber
num barzinho com os amigos, mas sai com outras mulheres. Bebe demais, toda
sexta ele fica entregue. Quando diz que vai jogar pôquer, vai para clubes de strip-tease.
- Sim, eu sei, eu li o relatórios dos
analistas. É que toda essa parte técnica me deixa um pouco tonta, sabe? Essas
planilhas todas... É tudo muito confuso. É que Eduardo tem um sorriso tão lindo
e sincero...
- Jéssica, olha só. Eu sou expert no mercado do amor. Trabalho aqui
há muitos anos e, acredite, já vi de tudo. Tudo mesmo. É um mercado de alto
risco e todos os investidores sabem disso. É claro, meu trabalho aqui é apenas
o de aconselhá-la, não posso e nem quero vetar um investimento.
- Ótimo, porque eu vou transferir tudo
o que eu tenho para Eduardo.
- Tudo?
- Tudo.
George afastou o telefone do rosto
suado. Procurou seu café na mesa abarrotada de aparelhos telefônicos e
anotações, mas aparentemente o estagiário havia se esquecido de trazê-lo.
Fechou os olhos por um breve momento e a única coisa que conseguiu ouvir foram
os gritos ensandecidos dos colegas. Acendeu mais um cigarro, fitou a tela do
computador e os grandes paineis eletrônicos que pairavam sobre o salão.
- Sra. Jéssica?
- Oi.
- Então, olha só. A senhora sabe que
temos muitas opções de investimento – porque, bom, o nosso mercado é vasto –,
mas vou falar com a senhora sobre Ricardo, já que ele e Eduardo são os seus
investimentos menos inseguros.
- Qual o seu nome mesmo?
- George.
- George, veja bem: Ricardo é um cara
legal e tudo, mas...
- Ele não é só legal. Ele esteve em
alta no mercado durante muito tempo e só quebrou agora com essa crise. A
senhora sabe, com essa crise não tem mais ninguém que preste, principalmente
homem, estatisticamente falando. Apesar de que, é claro, as mulheres não estão
apresentando um quadro muito melhor. Mas então, sobre Ricardo... Se não fosse
essa crise maldita, com certeza ele ainda estaria dentro dos tops do investimento.
- Eu sei, George. Preciso só que você
entenda que ele não é um investimento bom para mim. Pode ser para trezentas
outras mulheres, mas falta alguma coisa, sabe?
- Eu entendo, senhora. Antes de você
tomar qualquer decisão, preciso ressaltar que ele é lindo, atlético,
divertidíssimo, tem 169 de QI e é reconhecido como um profissional de
excelência. Rapaz sério, boa família. Mas claro, se quiser passar, é com a
senhora.
- Meu caro, eu não quero Ricardo.
Quero Eduardo. Invista tudo nele.
- Tudo?
- Tudo.
- Certeza?
- Certeza. Por um acaso, fiquei só
curiosa: como é Ricardo quebrou também? Gente, eu tinha tantas amigas
economizando para investir nele...
- Você sabe, não tá fácil pra ninguém.
Tipo aquelas fotos do Facebook dos seus amigos com um copo de vodka e uma
legenda “vamos beber porque amar tá difícil”. Ricardo ficou um bom tempo fora
do mercado, acredito que monopolizado por uma tal de Ana Cláudia. Quando
voltou, a demanda foi grande. Meus telefones não paravam de tocar, me lembro
bem disso. Mas hoje não teve jeito para ninguém, foi um colapso mundial.
Maldita globalização. – disse, George, jogando a seu cigarro ainda aceso no
copo de café de um colega que estava distraído tentando ajeitar a gravata com
apenas uma mão, enquanto segurava o telefone na outra.
- Entendi.
- Vou providenciar a transferência dos
fundos da senhora.
- Ok, George. Obrigado.
Passaram-se alguns minutos (George
atendeu umas 7 ligações durante esse lapso temporal).
- Senhora Jéssica, tudo feito.
Investimento total em Eduardo.
- Obrigado novamente, George. Bom dia.
– e desligou o telefone. George gostou do tom de sua voz: de aparente
felicidade.
George, o funcionário gordo, atendeu
ligações de clientes estressados e insatisfeitos pelo resto do dia. Ao final do
expediente, em meio aos corpos dos colegas suicidas estendidos no corredor, ele
foi na sala do seu chefe e pediu demissão. O chefe, incrédulo, perguntou se
George era burro ou se só era gordo mesmo. George respondeu:
- Gordo, talvez. Burro, jamais. Eu sei
porque esse mercado quebrou: não existem pessoas nota oito, nove ou dez. Existem
pessoas. Não há características melhores para que se avalie no mercado. As
linhas telefônicas não são capazes de captar o fogo de um olhar. Não existem
pessoas boas para o mercado, mas sim pessoas boas umas para as outras. E certas
conexões, felizmente, não podem ser contabilizadas.
George jogou a carteira de cigarro no
lixo e foi pra casa. Ele esperava que o chefe esquecesse essa conversa
desagradável, fruto do cansaço e da loucura do dia. Amanhã era um novo dia e
George tinha muito trabalho a fazer. Nas crises é quando surgem as maiores
oportunidades de ganho, diziam os telejornais.