domingo, 12 de outubro de 2014

MERCADO DO AMOR

As ações estavam em alta até o dia anterior. Todavia, provavelmente em decorrência de uma conspiração divina (era o que diziam os telejornais), a bolsa havia, de um dia pro outro, entrado em colapso. O dia amanheceu cinza. George, um cara gordo que atendia telefones, havia resolvido começar a fumar naquele dia; era, de fato, um caso curioso, pois George nunca havia fumado um cigarro na vida. De qualquer maneira, ele acordou com essa ideia na cabeça, determinado a colocá-la em prática.
Ao contrário da maioria dos seus colegas de trabalho, George sabia que a bolsa ia quebrar. Ele via isso no rosto das pessoas quando passava na rua, no mudar de luzes dos semáforos, no rebolado das belas mulheres que desfilavam na rua. No dia anterior, antes que os jornais anunciassem a calamidade, George, em seu íntimo, já sabia de tudo. Ainda assim, ele foi dormir tranquilo.
Ao acordar, George fez o de sempre: comeu pão com ovo, tomou seu café aguado, tomou um banho de quatro minutos, escovou os dentes, botou sua gravata slim preta (daquelas fininhas que estão na moda, segundo as revistas) por cima de sua camisa social branca, passou o cinto por cima de sua calça cinza – que quase não fechava, já que George era realmente muito gordo - e saiu de casa. Neste dia, porém, ele passou em uma banquinha próxima e comprou um maço de cigarro e um isqueiro. No caminho para o ônibus, George fumou o seu primeiro cigarro do dia: sem saber direito como proceder, basicamente o que ele fez foi tossir repetidamente e jogar o cigarro, ainda pela metade, no chão, reclamando da fumaça cancerígena que saía de sua boca. George pegou o seu ônibus e foi trabalhar.
Entrando na agência, George imediatamente percebeu o caos instalado no lugar: pessoas correndo e gritando, telefones tocando incessantemente e alguns corpos dos colegas pendurados em algum cano, enforcados pelos próprios cintos. O chefe de George, Roberto, gritou com ele quando o viu chegar, dizendo que ele estava sete minutos atrasado e que estava muito gordo. George acendeu um cigarro, sorridente, e acenou para o chefe, tossindo um pouco menos dessa vez. Em qualquer outro dia certamente George seria despedido naquele exato momento. Mas não era outro dia: aquele dia não era como os outros dias porque tinha dado merda no sistema.
George sentou em sua mesa e observou seus seis telefones tocarem sem parar. Fez um sorteio mental e atendeu qualquer um deles:
- ETA Corretora, George, bom dia.
- Bom dia o caralho, seu filho da puta! Investi tudo na Larissa e descobri que hoje perdi todo o meu investimento. Como vocês me explicam isso, sendo que vocês mesmos me indicaram essa opção? Disseram-me que era um investimento seguro, de pouco risco e de alta constante.
- E o senhor acreditou? Mas é um idiota mesmo!
- COMO É QUE É?
- Digo, o senhor conhece alguma coisa de Larissa?
- Claro que conheço! Uma mulher de bem com a vida, pós-graduada, gosta de drinks nas sextas e sábados, dois ex-namorados – um era brocha –, ganha dez salários mínimos, tem as melhores amigas casadas e não tem problemas com sexo anal. Gosta de sertanejo, mas ouve Chico Buarque também.
- Isso foi o que nós dissemos ou o que o senhor constatou?
- VOCÊS ME FALARAM QUE ERA UM INVESTI...
- Senhor, você é um idiota. Passar bem. – e foi assim que George desligou na cara do primeiro cliente do dia. Acendeu outro cigarro, mandou um estagiário te trazer uma xícara de café e cruzou as pernas sobre a mesa. Os telefones continuavam tocando. Atendeu outro.
- ETA Corretora, George, bom dia.
- Bom dia. Quem fala?
- George.
- Oi, George, aqui é Jéssica. Olha só, queria discutir um investimento que fiz com vocês no mês passado.
- Jéssica o que mesmo?
- Jéssica sobrenome tal e dados etc e tal.
- Ok, Sra. Jéssica. Em que posso ajudá-la?
- Então, na realidade eu fiz dois investimentos. Um em Ricardo e outro no Eduardo.
- Deixe-me adivinhar... Os dois quebraram hoje?
- Isso.
- E a senhora quer o reembolso porque dissemos que era um investimento seguro?
- Não, não é isso.
- Não?
- Não. Na realidade, eu queria investir mais em Eduardo.
- Olha só... Estou aqui olhando a tela do computador e preciso aconselhá-la a não fazer isso.
- Por que não?
- Eduardo, assim como todos os outros, quebrou hoje. Uma queda horrível! Todos os outros investidores já retiraram os seus investimentos. Só a senhora continua com determinando montante nele.
- Pois quero investir mais.
- Mas minha senhora, Eduardo não é confiável! Até que ganha bem, mas já traiu duas namoradas. Diz que vai beber num barzinho com os amigos, mas sai com outras mulheres. Bebe demais, toda sexta ele fica entregue. Quando diz que vai jogar pôquer, vai para clubes de strip-tease.
- Sim, eu sei, eu li o relatórios dos analistas. É que toda essa parte técnica me deixa um pouco tonta, sabe? Essas planilhas todas... É tudo muito confuso. É que Eduardo tem um sorriso tão lindo e sincero...
- Jéssica, olha só. Eu sou expert no mercado do amor. Trabalho aqui há muitos anos e, acredite, já vi de tudo. Tudo mesmo. É um mercado de alto risco e todos os investidores sabem disso. É claro, meu trabalho aqui é apenas o de aconselhá-la, não posso e nem quero vetar um investimento.
- Ótimo, porque eu vou transferir tudo o que eu tenho para Eduardo.
- Tudo?
- Tudo.
George afastou o telefone do rosto suado. Procurou seu café na mesa abarrotada de aparelhos telefônicos e anotações, mas aparentemente o estagiário havia se esquecido de trazê-lo. Fechou os olhos por um breve momento e a única coisa que conseguiu ouvir foram os gritos ensandecidos dos colegas. Acendeu mais um cigarro, fitou a tela do computador e os grandes paineis eletrônicos que pairavam sobre o salão.
- Sra. Jéssica?
- Oi.
- Então, olha só. A senhora sabe que temos muitas opções de investimento – porque, bom, o nosso mercado é vasto –, mas vou falar com a senhora sobre Ricardo, já que ele e Eduardo são os seus investimentos menos inseguros.
- Qual o seu nome mesmo?
- George.
- George, veja bem: Ricardo é um cara legal e tudo, mas...
- Ele não é só legal. Ele esteve em alta no mercado durante muito tempo e só quebrou agora com essa crise. A senhora sabe, com essa crise não tem mais ninguém que preste, principalmente homem, estatisticamente falando. Apesar de que, é claro, as mulheres não estão apresentando um quadro muito melhor. Mas então, sobre Ricardo... Se não fosse essa crise maldita, com certeza ele ainda estaria dentro dos tops do investimento.
- Eu sei, George. Preciso só que você entenda que ele não é um investimento bom para mim. Pode ser para trezentas outras mulheres, mas falta alguma coisa, sabe?
- Eu entendo, senhora. Antes de você tomar qualquer decisão, preciso ressaltar que ele é lindo, atlético, divertidíssimo, tem 169 de QI e é reconhecido como um profissional de excelência. Rapaz sério, boa família. Mas claro, se quiser passar, é com a senhora.
- Meu caro, eu não quero Ricardo. Quero Eduardo. Invista tudo nele.
- Tudo?
- Tudo.
- Certeza?
- Certeza. Por um acaso, fiquei só curiosa: como é Ricardo quebrou também? Gente, eu tinha tantas amigas economizando para investir nele...
- Você sabe, não tá fácil pra ninguém. Tipo aquelas fotos do Facebook dos seus amigos com um copo de vodka e uma legenda “vamos beber porque amar tá difícil”. Ricardo ficou um bom tempo fora do mercado, acredito que monopolizado por uma tal de Ana Cláudia. Quando voltou, a demanda foi grande. Meus telefones não paravam de tocar, me lembro bem disso. Mas hoje não teve jeito para ninguém, foi um colapso mundial. Maldita globalização. – disse, George, jogando a seu cigarro ainda aceso no copo de café de um colega que estava distraído tentando ajeitar a gravata com apenas uma mão, enquanto segurava o telefone na outra.
- Entendi.
- Vou providenciar a transferência dos fundos da senhora.
- Ok, George. Obrigado.
Passaram-se alguns minutos (George atendeu umas 7 ligações durante esse lapso temporal).
- Senhora Jéssica, tudo feito. Investimento total em Eduardo.
- Obrigado novamente, George. Bom dia. – e desligou o telefone. George gostou do tom de sua voz: de aparente felicidade.
George, o funcionário gordo, atendeu ligações de clientes estressados e insatisfeitos pelo resto do dia. Ao final do expediente, em meio aos corpos dos colegas suicidas estendidos no corredor, ele foi na sala do seu chefe e pediu demissão. O chefe, incrédulo, perguntou se George era burro ou se só era gordo mesmo. George respondeu:
- Gordo, talvez. Burro, jamais. Eu sei porque esse mercado quebrou: não existem pessoas nota oito, nove ou dez. Existem pessoas. Não há características melhores para que se avalie no mercado. As linhas telefônicas não são capazes de captar o fogo de um olhar. Não existem pessoas boas para o mercado, mas sim pessoas boas umas para as outras. E certas conexões, felizmente, não podem ser contabilizadas.

George jogou a carteira de cigarro no lixo e foi pra casa. Ele esperava que o chefe esquecesse essa conversa desagradável, fruto do cansaço e da loucura do dia. Amanhã era um novo dia e George tinha muito trabalho a fazer. Nas crises é quando surgem as maiores oportunidades de ganho, diziam os telejornais. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Neve em Salvador

Nunca antes na história de Salvador havia existido um fevereiro tão frio. A chegada inesperada da neve deixou todos surpresos. Nevava ininterruptamente já havia pelo menos duas semanas. A Transalvador fez previsões pessimistas sobre o futuro do trânsito, mas, por incrível que pareça, a neve havia deixado os motoristas soteropolitanos mais educados e precavidos. Muitos haviam abdicado de seus carros para utilizar os transportes públicos. No Comércio, por exemplo, em meio ao caos de quase meio metro de neve, o trânsito seguia tranquilo, apesar das vagas de estacionamento estarem lotadas. As únicas vagas vazias eram aqueles reservadas aos deficientes físicos, com sua marcação azul inconfundível fincada no asfalto.

Ali, nas redondezas do Mercado Modelo, os transeuntes passavam nitidamente apressados, vestidos com pesadas roupas de frio. Havia motivo para tanto: a nevasca era tão forte que mesmo daquela localização era muito difícil visualizar o Elevador Lacerda. Acrescente-se que a proximidade com o mar e a ventania criavam uma sensação térmica de algo em torno dos -15ºC. Era difícil até de imaginar alguém que se dispusesse a se aventurar nos catamarãs ou em uma ida ao pequeno restaurante do Forte São Marcelo. 

No Comércio, em meio ao tumulto, um senhor de idade, morador de rua, estava sentado na calçada, ao lado de uma pequena lata na qual algumas boas almas faziam pequenas doações: 10, 25 ou 50 centavos e – em dias de sorte, quem sabe – até moedas de um real eram despejadas naquela lata. O que chamava a atenção, todavia, não era a lata, mas os trajes daquele senhor: enquanto todos passavam com seus pesados casacos, aquele senhor não parecia ter se apercebido da abrupta mudança climática: continuava vestido com um short rasgado e uma camisa velha de botão. Os seus pés estavam descalços e uma bengala também já muito gasta descansava em seu colo. Este senhor inominado não tinha cor e seus olhos eram tão profundos e intrigantes que ninguém sabia que se eram pretos ou azuis.
Foi justamente esse senhor quem chamou a atenção de um transeunte. Vestido com um sobretudo preto e um terno de lã grosso por baixo, além de um cachecol vermelho, e carregando uma maleta preta que faria inveja a James Bond, este outro senhor, de cabelos grisalhos e barba bem feita, passou pelo morador de rua e não acreditou no que viu: em um frio desgraçado daqueles e o infeliz estava ali, desprotegido, à mercê do frio de Salvador. O seu primeiro movimento, instintivamente, foi procurar uma moeda no bolso para jogá-la na lata daquele pobre coitado, mas, não a encontrando, ele passou direto pela calçada. Poucos segundos depois, porém, por remorso, ele voltou ao local onde o velho estava congelando e o encarou. Este, que não gosta desses olhares atravessados, não hesitou em questioná-lo:

- Perdeu alguma coisa?

- Olha, amigo, só quero ajudar. Você está louco? Quer se matar em um frio desses?
- Não é de sua conta, “amigo”.
- Olha, desculpa, mas posso te dar roupas mais aquecidas. Posso trazê-las hoje à noite? O senhor ainda estará por aqui?

- Mais tarde estarei no campo santo, morto e enterrado. – respondeu o senhor da calçada, fazendo pouco caso da presença do estranho.

- Mas já são 17h, posso voltar aqui em torno das 19h. – disse o homem do terno, olhando o seu relógio dourado. – É o melhor que posso fazer.

- Não tenho interesse. Obrigado e passe bem.

- O senhor que sabe de sua vida... – disse o homem, fazendo menção de se afastar.

- Pera aí! – interrompeu o senhor da calçada – Você se importa comigo?

- Bom, se eu não me importasse, não teria parado aqui.

- Se é isso é verdade, então aceito esse casacão preto que você tá usando.

O homem de terno arregalou os olhos, surpreso. Que audácia! “A gente estende a mão, e querem logo o braço inteiro”, pensou. Abriu a boca para responder, mas o vazio tomou conta de sua língua. Não houve palavras, apenas um silêncio perturbador.

- Esse sobretudo eu não posso dar, me desculpe.

- Por que não? Estou com frio agora. Preciso de roupas agora. Eu contei quantas pessoas passaram por aqui hoje: 1.017. Todas de casaco. Você é o primeiro que me oferece roupas pra essa neve danada. Mas só isso não adianta: a morte é rápida e certeira. Ela não vai me esperar.

- Porque... esse sobretudo tem muita importância para mim. – pensou, calculando que deveria ter pago 2.000 euros pela peça de roupa, no inverno cruel da Dinamarca, quando viajou para uma reunião qualquer de negócios.
- Um mendigo como eu não vale muita coisa, eu já entendi. Muito obrigado pela sua atenção. Agora não me encha mais o saco. – dizendo isso, o senhor da calçada levantou-se, com dificuldade, apoiando-se em sua bengala, pegou a lata e comeu as moedas.

Assustado com a cena que acabara de presenciar, o corpo do homem de terno tentou dar um grito de susto, mas sua voz havia sumido. Um homem acabara de engolir uma grande quantidade de moedas bem em sua frente. Ele tentou gritar para que alguém ajudasse o senhor da calçada – que certamente teria um problema grave de saúde – mas, novamente, sua voz não veio.

O senhor da calçada começou a andar como se nada tivesse acontecido. Caminhou vagarosamente entre a neve acumulada até chegar ao mar da Baía de Todos os Santos. Lá, se jogou no mar e afundou. O homem de terno, que havia seguido o senhor da calçada para tentar alertá-lo sobre as moedas, não conseguiu impedi-lo: toda vez que chegava perto demais, suas pernas travavam. Sua voz, impotente, não saía. Assistindo o corpo daquele homem sumir na escuridão do oceano, o transeunte – um mero transeunte – largou o seu sobretudo na neve e tentou chorar. Entretanto, suas lágrimas congelaram  no momento que saíram dos seus olhos, bem aqui na capital baiana.

A vida prosseguiu e ninguém soube do intrigante caso do homem que engolira moedas. A neve ainda cobria Salvador (e não só Salvador); uma neve espessa, esquisita, estranha aos olhos de muitos, mas que estava lá. Fria. Congelante. Invisível. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Estrelas e convites

Fito as poucas estrelas visíveis entre as nuvens e sinto saudade. Não sei exatamente do que ou de quem, mas é uma saudade apertada. Talvez seja de quem eu já fui e este, hoje, ainda é uma parte de mim, apesar de já não ser mais eu. Talvez seja saudade do meu eu criança, do meu eu adolescente e até do meu eu idoso. Do meu eu desagregado, nem solitário e nem feliz. Tem alguma coisa de mágico na madrugada, no silêncio, no vento uivante. Tem saudade. Talvez não seja simples assim; o que somos nós sem os outros? Sem os amigos, as cervejas, os beijos, os choros e os risos? Então talvez não seja mesmo saudade de mim, que posso fitar as estrelas.

Quedo-me pensando se essas estrelas ainda estão vivas. Quanto tempo será que gastamos na vida olhando as coisas que brilham e que não percebemos que já estão mortas? Tem sentido, afinal. Até o que já não é mais pode manter o seu brilho. Talvez seja assim com nossas curtas vidas: um brilho que ecoa em lugares inimagináveis. A rotina, o trabalho, o casamento, os filhos, as férias, os anos. Passou. O sujeito pisca o olho e passou. Passou tudo: a dor, o amor, cansaço, o entusiasmo. E, incrivelmente, por mais trivial que seja a nossa existência, é possível que deixemos um brilho, como uma estrela. O que acontece, pois, é que a impressão que tenho é de que são as estrelas que estão me observando e não o contrário. Paradoxos da madrugada.

Bom, ininteligível ou não, essa luz distante me aperta o peito, como se puxasse minha alma para fora de meu corpo sedentário, e me envolve em um ar nostálgico, melancólico e, estranhamente, muito agradável (embora, em certo grau, desesperador). Pisco os olhos e quando os reabro tenho dificuldade em olhar o céu: a luz da cidade me ofusca. Não tem problema. A cidade também faz parte do âmago do ser, do sentir, do viver. É só assim que enxergo a vida: pés no chão e olhos nas estrelas. As estrelas me salvam do tédio, mas são os pés que me movem. Quem fica parado já morreu e não sabe! É como observar o próprio brilho no espelho e não perceber que não há nada. Só devaneios. Apenas, apenas devaneios. Por isso quando olho para as estrelas e penso no tempo eu sinto saudade do que eu já fui e no que eu ainda vou ser.

É claro que ninguém é nada sozinho. Somos, naturalmente, parte de um conjunto, sem o qual não poderíamos ser nós mesmos. E é também por isso que quando olho para as estrelas eu penso em convites. Convites estranhos, convites alheios, convites inesperados. É que se o tempo voa e os outros são parte de nós, para sermos mais, precisamos aceitar os convites. Dizer mais “sim!” do que “eu não sei...”. É que percebo, enfim, que a saudade não é de mim, mas do inatingível, do que me atrai sem motivo (ou não), do que deixa os pelos do meu corpo arrepiados, do que faz meu coração bater mais forte, das lembranças que eu ainda não tenho, dos olhares que ainda não troquei, das lágrimas que não derramei e dos sorrisos que ainda não dei. Tem algo de majestoso nas estrelas e nos convites...

Talvez todos esses pensamentos desconexos tenham relação com essa coisa de Ano Novo. Afinal, é primeiro de janeiro (bom, era até poucas horas atrás)! Acho que essa sensação de mudança, de esperança, de que as novidades surgirão em um passe de mágica acompanha esse período do calendário. Não ligo. O que me conforta é que a estrela que eu vi ontem é a mesma (ou quase!) que eu vejo hoje. E o que me dá esperança de verdade é saber que amanhã talvez ela não esteja lá, porque aí eu fico sabendo que preciso correr. Chico fazia samba e amor até de madrugada. E eu aqui olhando pro céu com um notebook no colo. O mundo é duro, meus amigos, mas está aí para ser explorado por aqueles que se aventurarem. Chega de saudade. Avante!