Fito as poucas estrelas
visíveis entre as nuvens e sinto saudade. Não sei exatamente do que ou de quem,
mas é uma saudade apertada. Talvez seja de quem eu já fui e este, hoje, ainda é
uma parte de mim, apesar de já não ser mais eu. Talvez seja saudade do meu eu
criança, do meu eu adolescente e até do meu eu idoso. Do meu eu desagregado,
nem solitário e nem feliz. Tem alguma coisa de mágico na madrugada, no
silêncio, no vento uivante. Tem saudade. Talvez não seja simples assim; o que
somos nós sem os outros? Sem os amigos, as cervejas, os beijos, os choros e os
risos? Então talvez não seja mesmo saudade de mim, que posso fitar as estrelas.
Quedo-me pensando se essas
estrelas ainda estão vivas. Quanto tempo será que gastamos na vida olhando as
coisas que brilham e que não percebemos que já estão mortas? Tem sentido,
afinal. Até o que já não é mais pode manter o seu brilho. Talvez seja assim com
nossas curtas vidas: um brilho que ecoa em lugares inimagináveis. A rotina, o
trabalho, o casamento, os filhos, as férias, os anos. Passou. O sujeito pisca o
olho e passou. Passou tudo: a dor, o amor, cansaço, o entusiasmo. E,
incrivelmente, por mais trivial que seja a nossa existência, é possível que
deixemos um brilho, como uma estrela. O que acontece, pois, é que a impressão
que tenho é de que são as estrelas que estão me observando e não o contrário. Paradoxos
da madrugada.
Bom, ininteligível ou não,
essa luz distante me aperta o peito, como se puxasse minha alma para fora de
meu corpo sedentário, e me envolve em um ar nostálgico, melancólico e, estranhamente,
muito agradável (embora, em certo grau, desesperador). Pisco os olhos e quando
os reabro tenho dificuldade em olhar o céu: a luz da cidade me ofusca. Não tem
problema. A cidade também faz parte do âmago do ser, do sentir, do viver. É só
assim que enxergo a vida: pés no chão e olhos nas estrelas. As estrelas me
salvam do tédio, mas são os pés que me movem. Quem fica parado já morreu e não
sabe! É como observar o próprio brilho no espelho e não perceber que não há
nada. Só devaneios. Apenas, apenas devaneios. Por isso quando olho para as
estrelas e penso no tempo eu sinto saudade do que eu já fui e no que eu ainda
vou ser.
É claro que ninguém é nada
sozinho. Somos, naturalmente, parte de um conjunto, sem o qual não poderíamos
ser nós mesmos. E é também por isso que quando olho para as estrelas eu penso
em convites. Convites estranhos, convites alheios, convites inesperados. É que
se o tempo voa e os outros são parte de nós, para sermos mais, precisamos
aceitar os convites. Dizer mais “sim!” do que “eu não sei...”. É que percebo,
enfim, que a saudade não é de mim, mas do inatingível, do que me atrai sem
motivo (ou não), do que deixa os pelos do meu corpo arrepiados, do que faz meu
coração bater mais forte, das lembranças que eu ainda não tenho, dos olhares que
ainda não troquei, das lágrimas que não derramei e dos sorrisos que ainda não
dei. Tem algo de majestoso nas estrelas e nos convites...
Talvez todos esses
pensamentos desconexos tenham relação com essa coisa de Ano Novo. Afinal, é
primeiro de janeiro (bom, era até poucas horas atrás)! Acho que essa sensação
de mudança, de esperança, de que as novidades surgirão em um passe de mágica
acompanha esse período do calendário. Não ligo. O que me conforta é que a
estrela que eu vi ontem é a mesma (ou quase!) que eu vejo hoje. E o que me dá
esperança de verdade é saber que amanhã talvez ela não esteja lá, porque aí eu
fico sabendo que preciso correr. Chico fazia samba e amor até de madrugada. E
eu aqui olhando pro céu com um notebook no colo. O mundo é duro, meus amigos,
mas está aí para ser explorado por aqueles que se aventurarem. Chega de
saudade. Avante!
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