quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Estrelas e convites

Fito as poucas estrelas visíveis entre as nuvens e sinto saudade. Não sei exatamente do que ou de quem, mas é uma saudade apertada. Talvez seja de quem eu já fui e este, hoje, ainda é uma parte de mim, apesar de já não ser mais eu. Talvez seja saudade do meu eu criança, do meu eu adolescente e até do meu eu idoso. Do meu eu desagregado, nem solitário e nem feliz. Tem alguma coisa de mágico na madrugada, no silêncio, no vento uivante. Tem saudade. Talvez não seja simples assim; o que somos nós sem os outros? Sem os amigos, as cervejas, os beijos, os choros e os risos? Então talvez não seja mesmo saudade de mim, que posso fitar as estrelas.

Quedo-me pensando se essas estrelas ainda estão vivas. Quanto tempo será que gastamos na vida olhando as coisas que brilham e que não percebemos que já estão mortas? Tem sentido, afinal. Até o que já não é mais pode manter o seu brilho. Talvez seja assim com nossas curtas vidas: um brilho que ecoa em lugares inimagináveis. A rotina, o trabalho, o casamento, os filhos, as férias, os anos. Passou. O sujeito pisca o olho e passou. Passou tudo: a dor, o amor, cansaço, o entusiasmo. E, incrivelmente, por mais trivial que seja a nossa existência, é possível que deixemos um brilho, como uma estrela. O que acontece, pois, é que a impressão que tenho é de que são as estrelas que estão me observando e não o contrário. Paradoxos da madrugada.

Bom, ininteligível ou não, essa luz distante me aperta o peito, como se puxasse minha alma para fora de meu corpo sedentário, e me envolve em um ar nostálgico, melancólico e, estranhamente, muito agradável (embora, em certo grau, desesperador). Pisco os olhos e quando os reabro tenho dificuldade em olhar o céu: a luz da cidade me ofusca. Não tem problema. A cidade também faz parte do âmago do ser, do sentir, do viver. É só assim que enxergo a vida: pés no chão e olhos nas estrelas. As estrelas me salvam do tédio, mas são os pés que me movem. Quem fica parado já morreu e não sabe! É como observar o próprio brilho no espelho e não perceber que não há nada. Só devaneios. Apenas, apenas devaneios. Por isso quando olho para as estrelas e penso no tempo eu sinto saudade do que eu já fui e no que eu ainda vou ser.

É claro que ninguém é nada sozinho. Somos, naturalmente, parte de um conjunto, sem o qual não poderíamos ser nós mesmos. E é também por isso que quando olho para as estrelas eu penso em convites. Convites estranhos, convites alheios, convites inesperados. É que se o tempo voa e os outros são parte de nós, para sermos mais, precisamos aceitar os convites. Dizer mais “sim!” do que “eu não sei...”. É que percebo, enfim, que a saudade não é de mim, mas do inatingível, do que me atrai sem motivo (ou não), do que deixa os pelos do meu corpo arrepiados, do que faz meu coração bater mais forte, das lembranças que eu ainda não tenho, dos olhares que ainda não troquei, das lágrimas que não derramei e dos sorrisos que ainda não dei. Tem algo de majestoso nas estrelas e nos convites...

Talvez todos esses pensamentos desconexos tenham relação com essa coisa de Ano Novo. Afinal, é primeiro de janeiro (bom, era até poucas horas atrás)! Acho que essa sensação de mudança, de esperança, de que as novidades surgirão em um passe de mágica acompanha esse período do calendário. Não ligo. O que me conforta é que a estrela que eu vi ontem é a mesma (ou quase!) que eu vejo hoje. E o que me dá esperança de verdade é saber que amanhã talvez ela não esteja lá, porque aí eu fico sabendo que preciso correr. Chico fazia samba e amor até de madrugada. E eu aqui olhando pro céu com um notebook no colo. O mundo é duro, meus amigos, mas está aí para ser explorado por aqueles que se aventurarem. Chega de saudade. Avante!