domingo, 17 de maio de 2015

Buscas?

Talvez a pergunta mais clássica da nossa existência seja: o que viemos fazer neste mundo? Sobre este questionamento debruçaram-se filósofos, teólogos e, sobretudo, curiosos. É que certeza, certeza mesmo, só temos a de que inexoravelmente vamos morrer, deixando para trás apenas o que lembrarem de nós. Somos, portanto, criadores de memórias. Alguns deixam o seu legado através da escrita, como Machado de Assis ou Ernest Hemingway; outros, através da música, como B. B. King ou Raul Seixas e tantos outros pela qualidade notável de suas habilidades em alguma ou algumas coisas, seja na ciência, na política ou na guerra. Outros, ainda, são marcados pelas simples e doces lembranças que ficam no coração da família e dos amigos.

Refletindo, pergunto-me se o que viemos fazer no mundo é deixar o nosso legado profissional: nãoseiquemzinho é um professor genial, ou um brilhante engenheiro ou um grande empresário. Neste sentido, provavelmente para a humanidade, por exemplo, o maior legado de J. R. R. Tolkien é a sua obra literária e o de John Lennon o seu trabalho musical feito com os Beatles. A grande maioria de nós, todavia, não chegará aos halls da fama: é improvável que eu e você sejamos conhecidos algum dia como um ser humano relevante na história da humanidade. Então, para nós, humildes mortais, qual é o sentido da vida? Será trabalhar arduamente e ter reconhecimento profissional? Será desempanhar um bom papel como companheiro de alguém ou de pai para os nosso filhos? É claro que acharemos um pouco de tudo isto no decorrer da vida e, de qualquer maneira, vamos vivendo. O tempo passa e as poucas respostas que chegam só nos mostram que andamos fazendo as perguntas erradas. E aí eu te pergunto: o que você fez hoje? Viu um filme? Leu um livro? Dormiu com o barulho da chuva? Você cresceu de alguma forma? E acha que deveria? O que você vai fazer amanhã? Por quê? Você sorriu ao pensar nisso? Interrogações, interrogações, interrogações.

O fato é que à medida que vamos envelhecendo a nossa percepção do tempo vai se alterando substancialmente e nossas prioridades, naturalmente, consomem-se em metamorfoses ambulantes. A pergunta sobre a nossa estada na Terra, em si, não muda: é a mesma que fazemos aos quinze, aos vinte e cinco, aos quarenta e aos setenta anos de idade. O porquê de fazermos esta pergunta, por outro lado, não é o mesmo, já que simplesmente não somos mais os mesmos. Ninguém entra no mesmo rio duas vezes. E assim alguns encontram conforto para a nossa problemática existencial na fé em uma força superior, em um paraíso que nos aguarda, cheio de maravilhas eternas, enquanto tantos outros se afogam em entorpecentes, lícitos ou não. Alguns outros tantos fazem de sua vida uma jornada rumo ao sucesso profissional, com incontáveis horas de trabalho e o acúmulo de invejáveis conquistas no mundo corporativo, com direito a carros de luxo, casas de praia enormes e algumas viagens ao redor do mundo. Não me interessa aqui avaliar se qualquer desses caminhos é certo ou errado: todos os caminhos podem ser certos. Isto porque invariavelmente persiste no âmbito popular a máxima de que vivemos para ser felizes.


Não surpreende, pois, que a Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776, tenha forjado a famosa frase segundo a qual todos os homens foram criados iguais por Deus e que os direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade são inalienáveis (“We hold these trues to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable rights, that among these are Life, Liberty and pursuit of Happiness”). A ideia, portanto, é de que devemos ter liberdade para viver e buscar a felicidade. Eu não sei se o objetivo da vida é ser feliz. Talvez seja. Talvez seja o de deixar algum tipo de legado, mas, a rigor, isso também não tem sentido. Então talvez o objetivo da vida seja viver, caminhando com os pés e fitando o infinito do cosmos em algum documentário do Netflix. Não há conclusões. Apenas interrogações. Interrogações? Interrogações... E um ponto e vírgula;

P.S.: Amanhã é dia de trabalho, então reflita sobre isso até a hora de dormir. Um beijo no coração. 

domingo, 22 de março de 2015

Amor no escuro

É noite. Fecho os olhos e respiro fudo e, por um instante, posso sentir o seu cheiro. Seua dedos macios estão repletos de carinhos e de agradáveis sensações; na escuridão, é como se caminhassem lentamente por minhas costelas, meu peito e meu pescoço. É quase um beijo perto da orelha ou um sussurro seguido de um sorriso. No escuro é quase como se ela, que eu ainda nem conheço, estivesse aqui.

Talvez quem sabe eu até a conheça sem conhecê-la. Ainda assim, vejo seu sorriso largo e despreocupado disputando espaço na paisagem com as oequenas ondas do mar. As ondas mais fortes, que chegam apenas aos meus ouvidos, se chocam com as rochas em uma praia que não me pertence mais, realçando o preenchimento de um corpo que não é o nosso. É que deitado no escuro o Sol brilha tão forte... E aí nem sei mais onde ficou minha esperança: se no grito de guerra dos destemidos ou nos óculos daquela menina.

É como se o destino acenasse para mim de longe e me chamasse para viver porque viver é amar. Talvez seja só o jeito despretensioso daquela menina de ajeitar os óculos para cima. Talvez sejam as estrelas me apontando a direção ou - triste hipótese - talvez seja só o meu coração cansado de ser feliz sozinho, como se procurasse pistasde uma paixão que dificilmente está aqui. Talvez este coração acelerado seja só um banho gelado. Talvez sejam mesmo só efeitos da escuridão. Porém, um outro pequeno talvez aquece o meu corpo moribundo: e se  os meus planos tiverem fracassado porque simplesmente não se planeja o amor?

Não somos nós, afinal, um encontro de acasos e paixões desenfreadas? Mas talvez... Talvez seja só a escuridão. Ou o amor. Desmedido. Imaturo. Inesperado. E que charme tem aquela garota (que ainda desconheço)! Um amor no escuro: inconsciente, decisivo e inacabado!